Futuro das Cidades - Instituto Vedacit

Especialistas apontam tendências no terceiro setor

Muitos são os profissionais que cada vez mais têm se aproximado do terceiro setor, em franca expansão nos últimos anos. Em 2016, existiam 820 mil Organizações da Sociedade Civil (OSCs) no Brasil, segundo mapeamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Pensando nisso, o redeGIFE conversou com três profissionais das áreas de formação voltadas ao mercado de trabalho desse campo, que trouxeram dicas e sugestões de cursos para quem quer ingressar na área, reorientar sua trajetória ou progredir na carreira em 2019.

Para Julia Melo, gerente nacional do Instituto Amani – que oferece cursos voltados a empreendedores sociais -, trabalhar no século 21 requer novas habilidades, especialmente para o desenvolvimento e o impacto social profundo e sustentável. “No Instituto Amani, acreditamos que existe uma lacuna entre o tipo de profissional que o mundo precisa e os profissionais que saem das nossas universidades, sem mencionar o distanciamento entre o que organizações que trabalham com impacto social precisam e a mão de obra disponível. E é aí que os programas e cursos do Instituto Amani entram em cena com a proposta de aprendizados práticos em contato com três dos maiores centros de inovação social do mundo: Kenya (Nairobi), Índia (Bangalore) e Brasil (São Paulo)”, explica.

Já Carlos Eduardo Garrido, coordenador de formação do Itaú Social, afirma estar vendo uma profissionalização muito grande no setor nos últimos anos. “Nos nossos cursos, há cada vez mais pessoas jovens e muito bem formadas, no Brasil e no exterior, que decidiram atuar no terceiro setor.”

O Itaú Social é uma instituição do campo do Investimento Social Privado (ISP) que oferece formação para além do público atendido por seus projetos. Dentro das áreas nas quais atua – melhoria da Educação e fortalecimento das OSCs – a entidade promove formações voltadas a gestores de projetos em organizações da sociedade civil e também a gestores de políticas públicas com diversos percursos formativos que abrangem a gestão pedagógica, técnica e administrativa dos projetos.

Habilidades relacionadas a captação de recursos e mensuração de impacto parecem ser as mais exigidas nos dias atuais para atender à demanda por mais diálogo com stakeholders e construção de legitimidade.

Marcelo Marchesini, coordenador do Programa Avançado em Gestão Pública do Insper, reforça essa leitura, porém observa que essas só são habilidades importantes a partir da clareza tanto da organização, quanto do profissional, acerca de sua contribuição. “Ter uma teoria de mudança bem definida pode ajudar nesse sentido.”

Julia afirma que o Instituto Amani considera o tripé autoconhecimento, desenvolvimento de lideranças e redes globais fundamental para a construção de uma carreira longa e bem sucedida. Temas como pensamento sistêmico, empreendedorismo social, liderança inclusiva e criativa, storytelling, design thinking, psicologia positiva, entre outros, fazem parte do escopo dos programas e cursos da instituição.

Nos últimos anos, atuação do terceiro setor tem se voltado cada vez mais ao foco no impacto. O tema vem ganhando importância tanto internamente nas instituições, quanto na formação para o mercado de trabalho do setor.

Carlos Eduardo Garrido, coordenador de formação do Itaú Social, conta que, atenta a essa tendência, em 2004, a instituição estruturou o Programa de Avaliação Econômica de Projetos Sociais. A iniciativa é baseada na econometria, metodologia que mede impacto.

“O terceiro setor tem se preocupado cada vez mais com a mensuração do impacto para saber se o que está sendo feito realmente está transformando a realidade. Mas, nós percebemos que cada vez mais as organizações têm ampliado a perspectiva da avaliação para além do impacto. Isso porque é preciso compreender que uma ação isolada não garante impacto. É preciso políticas setoriais e um conjunto de projetos para conseguir de fato transformar uma realidade. Por isso, é importante ampliar o horizonte sobre monitoramento e avaliação para outros aspectos que nos ajudem a tomar decisões de forma mais rápida”, observa.

Julia, por sua vez, ressalta que o impacto social não é uma agenda exclusiva do terceiro setor. “Trabalhamos para o desenvolvimento de profissionais que sejam capazes de produzir impacto social positivo em suas carreiras, independente do setor em que atuam. Sendo assim, nós confiamos plenamente que é possível ter uma vida com propósito e uma carreira de impacto social.”

Para a gerente nacional do Instituto Amani, o entendimento sobre a causa deve ser um exercício constante para a sustentabilidade de todo e qualquer projeto de impacto social.

Para profissionais interessados em ingressar no setor, Marcelo Marchesini, coordenador do Programa Avançado em Gestão Pública do Insper, salienta a importância da compreensão acerca dos principais desafios da agenda pública e sugere o voluntariado como caminho de aproximação.

“O trabalho voluntário pode ser uma porta de entrada à medida que permite o contato com algumas realidades. Então, pensando em ingressar em uma organização que trabalha com Educação, por exemplo, o profissional pode procurar conhecer e se envolver com algum tipo de atividade voluntária em escolas públicas. Essa compreensão e experiência mais direta é bastante importante para quem está começando.”

O Insper é outra instituição que oferece cursos voltados ao mercado de trabalho do terceiro setor, seja mais focados na gestão de organizações e projetos sociais, seja na avaliação de políticas. A proposta pedagógica da instituição e a definição dos conteúdos dos cursos são baseadas em um método centrado no aluno e focado na prática de resolução de problemas reais da agenda pública.

Para Carlos, cursos de graduação e pós graduação contribuem cada vez mais, mas os cursos livres, seminários e outras iniciativas promovidas pelo próprio setor, bem como a própria rede que se constrói para troca de informações no dia a dia são elementos essenciais para a formação dos profissionais.

O coordenador da área de formação do Itaú Social também observa que no caso do gestor de programas sociais ou políticas públicas, é necessária uma visão ampla e também mais conhecimento de temas e áreas estratégicas, tais como comunicação, gestão financeira e prestação de contas, advocacy, entre outras. Ele ressalta ainda a importância de compreender a estratégia da organização ou projeto.

“É importante buscar que o nosso trabalho possa contribuir cada vez mais para a estratégia da organização, para sua sustentabilidade, mais do que somente atender a demandas e projetos de curto prazo. Entender a estratégia e conhecer os campos temáticos são pontos muito importantes que passam pelo currículo de um bom gestor de projetos.”